"O que aconteceu com você? Tá diferente... Mudou o cabelo?"
A resposta que pensei em dar, formulada em meio segundo, resultado de muitas insônias foi:
"Na verdade, sim. Mudei muitas coisas - e o cabelo várias vezes -, mas essa transformação começou há algum tempo. Eu mesma demorei pra perceber. Fui dos tons mais pastéis aos mais intensos nas roupas, nos cabelos e no humor. Agora, diariamente, tento balancear os contrastes e o brilho das nuances internas. Comprei até um shampoo diferente e uns livros clássicos pra apoiar tudo isso. Entretanto, a diferença não está só no cabelo, mas na maneira de olhar para ele e para tantas outras coisas todos os dias como uma oportunidade de moldar o futuro e de construir quem eu realmente quero ser. E não é com a cor ou o volume dos fios que me ocupo, mas com a forma de trançar os dias. Antes acho que só estava, agora procuro ser para, então, poder estar de corpo, alma e cabelo."
Mas aí, respondi só um já esperado:
"Mudei sim, gostou?"
E enquanto ouvia a resposta, percebia - ainda buscava no outro o gosto de mim, a opinião do outro importava mais do que a do espelho, ou do que eu enxergava nele. É... A mudança havia começado, mas ainda estava bem longe do fim.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
segunda-feira, 30 de março de 2015
A vida é um sopro
(à Janaina Büll)
De repente me deparei com ela. Potente, estática, absoluta.
Mal sabia como lidar com sua presença, quem dirá vencê-la.
Era escuridão que ultrapassava a velocidade do som e da luz, mas não atrapalhava a visão. Estava lúcida e via com nitidez.
Instintivamente afastei-a, sem me dar conta do poder que estava exercendo. Revolucionei as células, afastei qualquer sinal de desistência ou trégua. Não mostrei a que vim, somente fui - como um rolo compressor de animosidades.
Lentamente se afastou... Da potência restou um vislumbre de posse, da estática moveu-se a última sombra e a única coisa absoluta naquele momento era a minha vontade de expulsá-la dali.
Não foi dessa vez e nem será tão cedo que ela vencerá. Só permanece aquilo que não se luta contra. E enquanto for possível lutar, não estarei à espera, mas pronta para vencer.
De repente me deparei com ela. Potente, estática, absoluta.
Mal sabia como lidar com sua presença, quem dirá vencê-la.
Era escuridão que ultrapassava a velocidade do som e da luz, mas não atrapalhava a visão. Estava lúcida e via com nitidez.
Instintivamente afastei-a, sem me dar conta do poder que estava exercendo. Revolucionei as células, afastei qualquer sinal de desistência ou trégua. Não mostrei a que vim, somente fui - como um rolo compressor de animosidades.
Lentamente se afastou... Da potência restou um vislumbre de posse, da estática moveu-se a última sombra e a única coisa absoluta naquele momento era a minha vontade de expulsá-la dali.
Não foi dessa vez e nem será tão cedo que ela vencerá. Só permanece aquilo que não se luta contra. E enquanto for possível lutar, não estarei à espera, mas pronta para vencer.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
a menina que agigantou
E como pode coisa dessa? Menina que já tem idade impressa em documento agigantar de um dia para outro? "É doença...", disse a tia, "é loucura", disse a vó, "é contagioso", pensou consigo mesma. Mas antes fosse.
Já fazia algum tempo que sua pose encolhida não ornava com o abrilhantado olhar que semeava por corpos outros. Sentia um incômodo na ponta dos ossos, mas como quem agarra um sonho, não deixava que eles esticassem nem um pouquinho só. Seguia encolhida para parecer pequena, pois acreditava que a percepção dos outros estipulava seu tamanho e era inconcebível mudar isso. Já pensou o choque?
Um dia se viu presa frente a uma poça d'água e percebeu um outro eu distorcido no olho de quem olhava. E quem era aquele que olhava? Era ela. Era ela? Pensava, pensava, pensava. Refletia sobre como ela nunca tinha olhado para o próprio reflexo. Nunca tinha tentado se ver, só via o que os outros diziam ver, afinal a maioria sempre está certa, não é mesmo? Não. Começou a pensar e a se olhar e a acolher seus sentimentos, seus medos, seus erros, seus eus e de repente as pernas, os braços, os dedos, a cabeça e por que não os pés, assumiram outro tamanho. Maior, quase contundente. Assustada, procurou algum lugar em que sua imagem coubesse, pois aquela poça era pequena demais àquela altura.
Resolveu trocar a opinião deles por um espelho e não foi que deu certo? Conseguiu se ver e o espanto e medo que a dominavam foram trocados por um sorriso. O encolhimento foi exorcizado por um brilho que nunca tinha visto antes: o seu próprio. Sem desvios em lentes alheias.
Saiu andando com seus passos de gigante, deixando para trás a aparência que não lhe cabia mais. Pararam ela na rua mais vezes do que seus grandes dedos poderiam contar, sempre dizendo: "nossa menina, como você cresceu!" e ela respondia sorridente a cada pessoa que estranhava seu tamanho: "não cresci, não, só parei de me encolher".
Já fazia algum tempo que sua pose encolhida não ornava com o abrilhantado olhar que semeava por corpos outros. Sentia um incômodo na ponta dos ossos, mas como quem agarra um sonho, não deixava que eles esticassem nem um pouquinho só. Seguia encolhida para parecer pequena, pois acreditava que a percepção dos outros estipulava seu tamanho e era inconcebível mudar isso. Já pensou o choque?
Um dia se viu presa frente a uma poça d'água e percebeu um outro eu distorcido no olho de quem olhava. E quem era aquele que olhava? Era ela. Era ela? Pensava, pensava, pensava. Refletia sobre como ela nunca tinha olhado para o próprio reflexo. Nunca tinha tentado se ver, só via o que os outros diziam ver, afinal a maioria sempre está certa, não é mesmo? Não. Começou a pensar e a se olhar e a acolher seus sentimentos, seus medos, seus erros, seus eus e de repente as pernas, os braços, os dedos, a cabeça e por que não os pés, assumiram outro tamanho. Maior, quase contundente. Assustada, procurou algum lugar em que sua imagem coubesse, pois aquela poça era pequena demais àquela altura.
Resolveu trocar a opinião deles por um espelho e não foi que deu certo? Conseguiu se ver e o espanto e medo que a dominavam foram trocados por um sorriso. O encolhimento foi exorcizado por um brilho que nunca tinha visto antes: o seu próprio. Sem desvios em lentes alheias.
Saiu andando com seus passos de gigante, deixando para trás a aparência que não lhe cabia mais. Pararam ela na rua mais vezes do que seus grandes dedos poderiam contar, sempre dizendo: "nossa menina, como você cresceu!" e ela respondia sorridente a cada pessoa que estranhava seu tamanho: "não cresci, não, só parei de me encolher".
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Sede
Um copo. Não sabia se estava cheio ou vazio, mas àquela altura, nem importava. Ela era cafona demais para acreditar em meios termos. Deu um gole.
Olhou pra cima. O céu enviava seus sinais vitais para ela de alguma forma e ela acreditava... Mesmo ultimamente tendo se sentido estrela perdida, porém não desperdiçada.
Abriu a mão e viu um lembrete rabiscado na palma. Entre as linhas que mostravam o futuro, ela esqueceu o que tinha que lembrar. Sinal de que não era importante.
Tomou mais um gole, mas a sede que sentia vinha da sede além da língua e do trato digestivo. Além das ranhuras da pele e dos olhos ressecados. Era um lugar de difícil acesso, mas que não era tão difícil de encontrar.
Então, virou o copo e nada. Mas não se preocupou, afinal, copo vazio também para em pé.
Olhou pra cima. O céu enviava seus sinais vitais para ela de alguma forma e ela acreditava... Mesmo ultimamente tendo se sentido estrela perdida, porém não desperdiçada.
Abriu a mão e viu um lembrete rabiscado na palma. Entre as linhas que mostravam o futuro, ela esqueceu o que tinha que lembrar. Sinal de que não era importante.
Tomou mais um gole, mas a sede que sentia vinha da sede além da língua e do trato digestivo. Além das ranhuras da pele e dos olhos ressecados. Era um lugar de difícil acesso, mas que não era tão difícil de encontrar.
Então, virou o copo e nada. Mas não se preocupou, afinal, copo vazio também para em pé.
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