Ouvi alguém bater na porta. Me assustei. Estranhei que naquele momento em que a casa estava cheia mais alguém poderia entrar. Abri a porta desconfiada, mas era inevitável. Fui olhada antes de olhar e já senti a intensidade do que aquele encontro iria propiciar antes mesmo de dizer "olá".
Ponderei, neguei, resisti, mas, quando vi, a porta estava escancarada, a casa vazia e ele havia entrado. Tomou conta de todos os espaços e eu deixei.
Então, começamos a transformar a arquitetura daquele que era meu espaço. Comecei a achar que o espaço estava perdendo personalidade, mas mesmo assim eu deixei. Aos poucos fui percebendo algumas coisas fora do lugar. Objetos, retratos, sentimentos. E não me abalei. Pelo menos fingi não me abalar. Sempre achei estranha essa coisa de pertencimento, então apaguei a linha entre eu e ele e deixei que toda migalha minha fosse dele também. Controlada, possuída, governada. Quando olhei mais atentamente, tudo já tinha sido apossado e bagunçado, mas eu não interrompi o movimento, eu deixei que acontecesse.
De repente era mais fácil jogar aquela bagunça em um canto escuro, dentro daquele baú que ficava no canto da sala. E dos ruídos de amor que já haviam se tornado barulhos existenciais, ouvi o silêncio tomar lugar. Mais uma vez não agi. Eu deixei.
O mais estranho de todo esse movimento é que em alguma hora eu parti de lá. Deixei que aquele convidado se tornasse proprietário de tudo e me coloquei do lado de fora do portão do meu próprio lar. Eu deixei que esse fosse meu novo lugar e o assumi como se sempre tivesse vivido lá.
Bizarro pensar em como cheguei ali. Tão bizarro que o convidado percebeu que a casa estava abandonada e, em sua nova posição de dono, resolveu reformar o espaço, deixar a sua cara. O problema é que não havia estrutura pra tudo aquilo que ele queria. Ao invés de pincéis e marretas, ficamos só eu e ele. De repente, uma palavra mal colocada estourou o pote de açúcar. Assustamos, mas como não houve reação contundente, ele evoluiu. Uma ofensa explodiu estrondosamente o encanamento do banheiro. Minhas lágrimas se juntaram às águas do vazamento, então era como se nada tivesse acontecido. Não encontrando obstáculo, continuou sua obra. Aí, como alguém que põe uma porta abaixo, aconteceu. A violência que se aninhava perto de mim me deixou estática, com medo de que uma hora essa fúria fosse direcionada ao meu corpo ao invés da parede que ele já havia esmurrado tantas vezes. Mesmo assim, eu deixei.
Deixei tanto, permiti tantas coisas, que até o hóspede resolveu me deixar. E eu que estava do lado de fora da porta da minha própria vida, me vi pedindo a chave àquele que antes era somente um convidado. E ele já não se importava mais, havia jogado a chave pela janela (que agora era só um buraco escangalhado).
Aí ficamos eu e os escombros. As ruínas. Fiquei do lado de fora até perceber que a destruição tinha levado as portas. Não precisava de chave pra entrar. Voltei pra casa, mas àquela altura via tudo como irremediável. Resolvi me deixar pra trás. E deixei.
Aos poucos, fui engatinhando em direção ao centro de tudo. Parei e observei todo o caos depois de muito tempo vivendo à sua sombra. Tempestades e seca, dias de sol e noites que duravam semanas aconteceram. Mas aí resolvi olhar os escombros como partes minhas que precisavam de reparos. Talvez fosse a hora de abandonar a posição de vítima que aquela casa conhecia bem e conquistar o controle de cada tijolo, cada pedaço de tinta e de louça. Fragmentos são mais fáceis de serem remodelados.
Então, chegou a hora de deixar a confusão ir embora e limpar as partes mais medonhas e sujas. Lidar com cada trinco e cada falha estrutural. Agora, começo a colocar as paredes de pé e vejo que sou a arquiteta e a construtora do que habita meu lar. Do que me habita. Sou responsável pelo lugar em que estava, então vou assumir o lugar em que quero estar.
Na minha casa nova, as dobradiças das portas e os trincos das janelas serão reforçados, mas nada disso importa. São as novas vigas de ferro que vão tornar as intrusões menos drásticas. Elas aparecem só do lado de dentro, mas são o suficiente para proteger e construir meu lar. Lá em casa.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Antes de dar certo
Parados entre um "e se..." e um "não era pra ser". Esse é o estado constante dos eternos insatisfeitos e grandes sonhadores. Sempre pensando no que não deu certo e no que poderia dar. Mas e o meio?
Antes de dar certo é preciso, talvez, parar de se esconder atrás do muro do "não era pra ser". Depois, então, pegar a culpa nas mãos e se responsabilizar pela sua parte dela, resistindo ao costume e delírio do "tudo ou nada", "vítima ou vilão". Na percepção do "eu" deveria caber cada vertente da estúpida lucidez humana e de sua exata loucura. Afinal só somos prisioneiros do que permitimos e só podemos ser livres se o aceitarmos.
Talvez uma pitada daquela coisa batida do "não somos felizes por escolha" seja vital, assim como parar de analisar todo o caminho percorrido para ver qual foi a parte dele que desviou pra onde estamos agora. Concentrar-se e alongar-se para as milhas que ainda serão percorridas também talvez seja um dos primeiros passos que podemos dar para "darmos certo". Não por dinheiro ou por expectativas, mas por nós. Pelo que sentimos de melhor, pois só assim faremos o melhor também.
Saia da pausa dramática e tome a decisão mais corajosa de todas: retomar o rumo ou criar um novo. Mas antes de começar pare, respire fundo e permita e alma e o coração guiarem a razão. Quem sabe esse é o lugar e a hora para dar certo.
Dito tudo isso, chega a hora de declarar o segredo: mexa-se.
Antes de dar certo é preciso, talvez, parar de se esconder atrás do muro do "não era pra ser". Depois, então, pegar a culpa nas mãos e se responsabilizar pela sua parte dela, resistindo ao costume e delírio do "tudo ou nada", "vítima ou vilão". Na percepção do "eu" deveria caber cada vertente da estúpida lucidez humana e de sua exata loucura. Afinal só somos prisioneiros do que permitimos e só podemos ser livres se o aceitarmos.
Talvez uma pitada daquela coisa batida do "não somos felizes por escolha" seja vital, assim como parar de analisar todo o caminho percorrido para ver qual foi a parte dele que desviou pra onde estamos agora. Concentrar-se e alongar-se para as milhas que ainda serão percorridas também talvez seja um dos primeiros passos que podemos dar para "darmos certo". Não por dinheiro ou por expectativas, mas por nós. Pelo que sentimos de melhor, pois só assim faremos o melhor também.
Saia da pausa dramática e tome a decisão mais corajosa de todas: retomar o rumo ou criar um novo. Mas antes de começar pare, respire fundo e permita e alma e o coração guiarem a razão. Quem sabe esse é o lugar e a hora para dar certo.
Dito tudo isso, chega a hora de declarar o segredo: mexa-se.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Náufrago
Ele. Abriu os olhos em terra desconhecida. Tudo estava tão
claro que chegou a ficar cego por frações de segundo. O que era aquele deserto
todo? Aquelas nuvens de areia pareciam desencobrir encostas não planejadas -
acontecidas.
Sem abrigo nem espelho, tentava olhar em frente para ver o
caminho, mas sabia que aquela direção era só acontecimento, não fim. Tropeçava
a cada ideia que tecia enquanto tentava despertar naquela paisagem que parecia
definida, mas que ele não conseguia por contorno.
Ele. Que mesmo tendo o conhecimento de cinco vidas e a
experiência de três não havia vivido nenhuma. Sentiu-se mareado. Talvez o
ambiente fosse convidativo para essa sensação, mas não havia motivo. Motivo.
Palavra que supostamente devia trazer sentido, mas naquele momento era só três
vogais e seis letras.
Era inevitável que em algum momento se deparasse com seu
reflexo. E quando aconteceu, aproximou-se de sua imagem para ver com olhos
céticos: o que havia ali? Como se observasse algo novo, viu em seus olhos,
enquanto passava a mão em seu rosto, raiva e medo daquele território. Seu
corpo. Conseguia ver as não vontades todas que sentia e frustrava-se por não
conseguir ver o que queria. Náufrago em seu consciente, lidando com os
silêncios que não podiam mais ser encobertos por outros sons, ainda ouvia ecos
de pensamentos, mas sabia que a hora de lidar com o que não estava lá fora chegaria.
Ser era pairar em águas claras e meio sem
sal naquelas manhãs. Náufrago em si, ele emergia. Bom
dia.
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Raio
Daí você para, pensa, pensa, pensa...
E não não tem mais uma gotinha de nada dentro de si.
Nem de pensamento, nem de suor, nem do sentimento que era orgulhoso por ser abundante.
O tão temido dia em que conhecemos o vazio raiou. E a hora de descobrir como faz pra (pre)encher velhos e novos lugares também.
Chegou a hora de partir ou recomeçar.
Êta vida besta meu deus.
E não não tem mais uma gotinha de nada dentro de si.
Nem de pensamento, nem de suor, nem do sentimento que era orgulhoso por ser abundante.
O tão temido dia em que conhecemos o vazio raiou. E a hora de descobrir como faz pra (pre)encher velhos e novos lugares também.
Chegou a hora de partir ou recomeçar.
Êta vida besta meu deus.
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