Há certo tempo, eu achava que tinha que ser perfeita em tudo. A melhor filha, a amiga que nunca erra, o amor que nunca falta, a profissional reconhecida, o exemplo.
Há não muito tempo, eu achava que se nunca viajasse pra fora, a vida não teria valido a pena, que se não soubesse dirigir e tivesse um carro antes dos trinta seria motivo de vergonha e que se voltasse a morar com minha família ia ser ridículo.
Aí eu vi que na verdade não era o outro que queria tudo isso de mim, era eu mesma. Que não eram as pessoas ao redor que iam se decepcionar, mas eu mesma, pois quem vive meus dias sem esses itens de status, sou eu. Cada um está mais é preocupado com sua própria vida. Isso me incomodava demais. Acho que principalmente pelo fato de eles estarem certos.
Eu ainda quero muitas coisas, mas não preciso delas. Algumas das metas se mantêm, é importante ter metas, mas só como ponto no horizonte, para servir como um norte. Acho que o que eu consegui ver é que ir um pouco em direção aos outros pontos cardeais me salvou de mim e de toda a nocividade que eu me causava, achando ainda que a cobrança era do outro.
Essa coisa de aniversário tem sido um peso pra mim há muito tempo. Nunca soube muito o porquê e acredito que talvez em análise descubra, mas acho que existe uma pressão de pensar até onde cheguei, onde estou, para onde irei, principalmente considerando a idade e o que todos esperam que eu já tenha nessa época.
Há não muito tempo, resolvi deixar um pouco de lado a preciosa imagem que tinha construído de mim e fui tentar ver o que é que tinha pra mim além de mim. Me perguntava o que será que eu era além do que eu esperava. E não ache que vou colocar aqui que encontrei algo extraordinário, até porque nem acho que a palavra certa seja "encontrar". Mas eu senti que eu não sou nada demais.
Nossa! Como assim? Você está se depreciando? Não, porque também sinto que não sou nada de menos. E foi um alívio. Claro que esses alívios passam e ainda bem, mas consegui me enxergar com mais verdade e olhar pras pessoas ao meu redor com mais verdade.
Aceitei o fato de que posso e vou errar, de que vou ser o pior e o melhor de mim, algumas vezes demais, outras de menos, mas que independentemente de qualquer ponto da curva da vida em que eu esteja, eu vou ser eu. Com imagens construídas ou não. Com carro ou não. Com passaporte carimbado ou não. Com erros e acertos, conquistas e perdas, vergonhas e orgulhos, eu ainda vou ser eu.
Ainda vou aprender muito como filha, errar muito como amiga, faltar com amor e ser um exemplo a não ser seguido. Quanto ao reconhecimento, muito mudou. Uma das maiores lições e honras da minha vida foi perceber, de verdade, não só da boca pro mundo, que reconhecimento não vêm em números, palavras ou apertos de mão, mas em olhares e em momentos de vidas que eu não vou acompanhar ou saber, mas construir. Ser reconhecida sem que ninguém me reconheça é algo indescritível. Sou muito grata a mim mesma por ter me arriscado e tentado me aproximar da minha essência. Claro que não fiz nem farei nada sozinha, mas tudo na nossa vida parte da gente.
Não estou liberta ou em paz, nem me achando ou me humilhando, só aceitei que no fim das contas e das linhas eu sou eu e isso basta.
domingo, 22 de maio de 2016
Abandono
Eu te espero voltar.
Como a mãe que espera não só o pródigo, como o cão que espera não só o mestre e como o filho que pode ser tanto aquele que ainda não sabe que a mãe não o abandonará, como aquele que ainda não conseguiu entender que ela o abandonou.
Ah, se fosse mais um caso de coração partido por um parceiro romântico, um pouco de tempo e brigadeiro talvez resolveria. Ou se fosse um caso de desordem familiar, talvez alguns anos de terapia ajudariam. Mas não estamos falando do clichê.
O abandono de que falo não fui eu que sofri, mas também o sinto. E além dos animais, das crianças e dos idosos, passivos desse horrendo verbo transitivo, que apesar de pedir complemento, escolhe deixá-lo para lá, existe também o abandonado ativo: que abandona a si. Assisti-lo dói e faz a gente querer acolher, assim como o animal, a criança, o idoso. Mas quando falamos de um abandono de si, aquele que abandona e o que é abandonado repousam no mesmo corpo e é só esse corpo que pode readmitir o encontro, o acolhimento.
Quando você resolver voltar, quando desistir de desistir de si, estarei aqui, além desse tempo em que você se abandonou e saiu por aí. Continuo aqui.
Eu ainda espero poder te ver voltar e peço que volte logo, porque eu sei que você se sente falta. Eu também.
Como a mãe que espera não só o pródigo, como o cão que espera não só o mestre e como o filho que pode ser tanto aquele que ainda não sabe que a mãe não o abandonará, como aquele que ainda não conseguiu entender que ela o abandonou.
Ah, se fosse mais um caso de coração partido por um parceiro romântico, um pouco de tempo e brigadeiro talvez resolveria. Ou se fosse um caso de desordem familiar, talvez alguns anos de terapia ajudariam. Mas não estamos falando do clichê.
O abandono de que falo não fui eu que sofri, mas também o sinto. E além dos animais, das crianças e dos idosos, passivos desse horrendo verbo transitivo, que apesar de pedir complemento, escolhe deixá-lo para lá, existe também o abandonado ativo: que abandona a si. Assisti-lo dói e faz a gente querer acolher, assim como o animal, a criança, o idoso. Mas quando falamos de um abandono de si, aquele que abandona e o que é abandonado repousam no mesmo corpo e é só esse corpo que pode readmitir o encontro, o acolhimento.
Quando você resolver voltar, quando desistir de desistir de si, estarei aqui, além desse tempo em que você se abandonou e saiu por aí. Continuo aqui.
Eu ainda espero poder te ver voltar e peço que volte logo, porque eu sei que você se sente falta. Eu também.
sábado, 21 de maio de 2016
Vidas
Há vidas que têm dificuldade de permanecer em constante laço com o chão. Preferem o atrito dos amores, das dores, das nuvens. Não se perdem, pois não tem como objetivo encontrar-se. Voam e vivem, mas sofrem quando precisam pousar. Afinal, as relações acontecem quando os corpos tocam a terra, mas se eternizam na etereidade dos sonhadores.
Há vidas em que não importa ter onde morar, se se é proprietário das vontades que se acredita ter. A elas fica a ilusão-verdade de serem donas de si.
Há vidas que têm que lutar para viver. E não é na gravata, no que se considera trabalho, na renda. É na resistência de suas células, de suas almas ao que o mundo tem para oferecer.
Há vidas que não querem ser vividas e passam despercebidas pelos olhos do tempo. Outras que se aprisionam em seu próprio querer e definham, lentamente, na vontade de ser o que não desejam.
Que vida vivemos?
Há vidas em que não importa ter onde morar, se se é proprietário das vontades que se acredita ter. A elas fica a ilusão-verdade de serem donas de si.
Há vidas que têm que lutar para viver. E não é na gravata, no que se considera trabalho, na renda. É na resistência de suas células, de suas almas ao que o mundo tem para oferecer.
Há vidas que não querem ser vividas e passam despercebidas pelos olhos do tempo. Outras que se aprisionam em seu próprio querer e definham, lentamente, na vontade de ser o que não desejam.
Que vida vivemos?
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Deixe
Deixe o cabelo desgrenhar, a barba crescer, as noites passarem mal dormidas.
Não se depile. Deixe suas células e seus pelos sem cortes, sem aparas.
Cresça inteiro de novo.
Tente se reconhecer.
Não sinta fome, perca a ideia que tinha de quem você era.
Perca horas olhando pro teto. Dê a si o direito de não ser produtivo. Só seja qualquer coisa semiviva.
Atinja o lado baixo de si. Reconheça que está ali e respire.
Espere passar. Lute com tudo na sua cabeça que diz que não dá mais ou que quer voltar atrás.
Dê tempo para o tempo que não quer fluir.
Finalmente durma. E acorde.
Abra os olhos, mas cuidado com a claridade.
A selva que antes o ameaçava com predadores e plantas venenosas, aos poucos se abre em uma clareira. Ela teve o espaço de ser e agora vai ter espaço de abrir outros ciclos.
A intensa dor que sentia e impedia de pensar em qualquer coisa que não ela, vai anestesiando.
Ela pôde ser sentida em toda a sua intensidade e, aos poucos, perde sua função, sua pulsão.
Veja onde esteve, onde está e onde quer tentar.
Vá. Deixe seu cabelo, sua barba, seu pelo, seus medos, como preocupação para tempos de recolhimento. Esse não é um deles. Não mais.
Vá e deixe. Se deixe. Ser.
Não se depile. Deixe suas células e seus pelos sem cortes, sem aparas.
Cresça inteiro de novo.
Tente se reconhecer.
Não sinta fome, perca a ideia que tinha de quem você era.
Perca horas olhando pro teto. Dê a si o direito de não ser produtivo. Só seja qualquer coisa semiviva.
Atinja o lado baixo de si. Reconheça que está ali e respire.
Espere passar. Lute com tudo na sua cabeça que diz que não dá mais ou que quer voltar atrás.
Dê tempo para o tempo que não quer fluir.
Finalmente durma. E acorde.
Abra os olhos, mas cuidado com a claridade.
A selva que antes o ameaçava com predadores e plantas venenosas, aos poucos se abre em uma clareira. Ela teve o espaço de ser e agora vai ter espaço de abrir outros ciclos.
A intensa dor que sentia e impedia de pensar em qualquer coisa que não ela, vai anestesiando.
Ela pôde ser sentida em toda a sua intensidade e, aos poucos, perde sua função, sua pulsão.
Veja onde esteve, onde está e onde quer tentar.
Vá. Deixe seu cabelo, sua barba, seu pelo, seus medos, como preocupação para tempos de recolhimento. Esse não é um deles. Não mais.
Vá e deixe. Se deixe. Ser.
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