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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Café

Esbarrei em uma velha oportunidade na rua outro dia. Nem lembrava mais que ela havia existido, mas foi um cruzar de olhos e ela se revelou. Cansada, mas altiva, presunçosa, como sempre, aquela chance de amar sempre ficava escondida em plena vista.

Trocamos sete dedos de conversa e disse ao seu detentor que estava com um dia cheio, mas que poderíamos marcar um café. Talvez a ideia de escaldar aquela emoção causada por essa troca de nadas, fosse mais forte do que meu inconsciente pudesse disfarçar.

A gente troca muitos nadas por aí. Depois colocamos esses nadas em um lugar de admiração e fantasiamos que talvez pudessem ser suficientes pra gente acalmar todas as coisas que acontecem no coração. Mas nunca são.

Bater na porta que antes estava aberta é sinal de que aquele lugar que você ocupou um tempo atrás, não está disponível. Aquela oportunidade de amar era só mais um monte de vazios colocados no lugar certo, na hora exata. Mas mesmo assim era esperado que fôssemos lá, mendigar, pedir, implorar pra alguém nos amar. Nem que fosse só pra ser o último a dizer "não te quero".

Às vezes as (des)obrigações da vida pesam. Vêm pairando e aterrizam como avião em pouso forçado. Como um mergulho, em um dia frio, em mar revolto. Cada onda quebra uma parte na gente por sabermos que somos obrigados a agir e reagir de determinadas maneiras, evitando nos afogar. Podemos lutar contra isso, mas viver é uma tentativa eterna de desviar dos clichês, de remar contra a maré.

Entre tanta previsibilidade, no entanto, é humano tomar cuidado para não abrir alas vãs em corações que querem nos amar. Tentar eliminar o ciclo vicioso do vazio é cuidar do outro como se fosse nosso coração em jogo.

A gente pode deixa sarar no outro pra curar a gente. Mas sem escaldar no café a promessa de tentar amar diferente.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Amor Frankenstein

Todo começo de amor é assim. Esperança, medo, lições de amores passados, regados pela tentativa de não ficar dando força a algo que provavelmente não é o que pensamos. Friozinho na barriga? Check. Saudade inexplicável que faz você mandar uma mensagem e se arrepender instantaneamente? Check. Vontade de contar pros amigos, mesmo sabendo que eles vão dizer "segura a onda", pois conhecem tanto você quanto todas as histórias horríveis de ex-casos que não deram certo? Check.

Mas neste carnaval pressinto que a melhor fantasia vai ser a mistura de todas as utopias escondidas em uma caixa qualquer na nossa mente. Vai rolar química, paixão, ciúme e desapego total, um mix de colombina com Cinderela, com havaiana e com aquela menina que não foi fantasiada, mas que despertou mais coisas do que Freud poderia explicar.

Nesse mix de acessórios, purpurina e confete, em meio a fantasias, metafóricas ou não, o começo de um novo amor é o descomeço de outros, ou até sua continuação, se não tomarmos cuidado. É uma alegoria que vem com potencial para mudar este e outros carnavais, mas que pode nem chegar na quarta-feira de cinzas.

Ah, se o Dr. Frankenstein soubesse que ainda cria vidas por aí, voltaria, pelo menos em fevereiro, pra prestigiar a mistura de ex-amores (mascarados ou não), vendo-os se transformar em projetos de ter alguém pra nos acompanhar o ano inteiro. Viva o carnaval!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Conexão

Dentre os muitos aindaporsaberes da vida, falta-me entender a conexão.
Aquela coisa que antes eu chamava de química, mas a que agora dou maior importância e força cósmica, a essa troca de energia que temos com alguém que faz com que levemos um pouquinho dele conosco e que o deixemos levar um tantão da gente com ele.

Conexão pode ser interpretada como amor. Acho que os poetas, os escritores, os jovens, os velhos e as crianças estão tão ávidos e atentos às manifestações desse grande desconhecido que é o amor, que talvez nunca descubramos onde ele começa, onde termina e o que ele é, ou se é só uma conexão.

Quantas vezes tive uma conversa agradável, senti-me acarinhada e querida e achei que estava na presença do meu grande amor. Quantas vezes acolhi alguém, trouxe-o para o meu seio e deixei que se alimentasse do que eu tenho de mais raro, minha energia, achando que seria aquela a chance de encontrar lugar no amor do outro.

Também achei que isso só acontecia uma vez a cada mil anos em galáxias sorteadas, mas a verdade é que conexões acontecem a todo momento. Só precisamos prestar atenção a quem estamos nos ligando.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Cinema

O filme tinha acabado. E, pela primeira vez, ele sentia que também havia enredo depois dos créditos finais. Antes, saía do cinema com um buraco no peito e uma falsa expectativa de, quem sabe, poder ser tão feliz quando aquele casal que aparecia na telona.

Os créditos começaram a passar. E pela primeira vez ele não teve preguiça de levantar e encarar a multidão, porque ao seu lado, de mão colada à sua, estava alguém com quem valeria a pena sair um pouco antes da sala. Alguém com quem ele poderia correr para viver, correr contra o tempo para poder aproveitar cada segundo daquela pessoa que enfim o havia encontrado. Ou ele havia encontrado. Não importava.

Mas também não havia pressa. O filme acabou e ele não pegou o celular, ele só queria ouvir o que aquela boca tinha a dizer, a sua opinião seguida por uma piada casual, só para não perder o costume.
Acabou o filme e, ainda assim, ele tinha um ótimo motivo para sorrir e frio na barriga.

Nem no cinema poderia haver outra história tão linda.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Você

Eu tenho um segredo escondido. Quase que até de mim ele passou sem ser percebido.
É algo que tem a ver com a minha vontade de sair da cama, com o silêncio que não me incomoda mais, com o desejo de ser mais.

Está envolto em várias camadas de disfarces e negações. Em um lugar de difícil alcance.
Lá estão enterradas vontades, medos, passagens. Quem vê pela superfície acha que é orgulho (ou a falta dele). Disfarço bem.

Habita em um lugar ermo, mas ao mesmo tempo cheio de luz. Própria.
Reflete horizontes de contos de fadas e procrastinações acadêmicas.
Alimenta-se de si e produz a si mesmo.

Esse segredo é autoimune, autoral, automático. Mas não tem nada a ver comigo, pelo menos não diretamente. Ele existe em um espaço que foi tomado em mim, que pouca gente pode ver.

Esse segredo é amparo disfarçado de amor.
Calma em riso e retorno em despedida.

Eu tenho um segredo sem ter: você.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

De novo

Eu vou pro Rio pra te esquecer.
Lá eu vou achar um moreno tatuado que estará disposto a fazer tanto ou mais estrago que você.
No meio do carioquês eu vou me lembrar de que a gente adorava sotaques. E pode ter sido por isso que não demos certo. Digo, por sermos do mesmo lugar, eu e você.

Ah, deixa pra lá.
Deixa pros cantos, pras quinas e seus encontros com dedinhos do pé, pras ondas, pros grãos de areia. Eles resolverão a situação do meu coração que se apequenou, tentando fugir de você.

Eu lembro do dia em que te aceitei de novo e jurei que ia ser a última chance.
E foi.
Só que às vezes eu penso que talvez só mais umazinha seria o suficiente pra gente se entender. Mas entender o quê? Se nem fomos, quem dirá voltamos.

Bom, a passagem já está comprada. Vou pro Rio ao entardecer de uma sexta-feira. A não ser que você queira me ver. Aí eu ligo pra companhia aérea, brigo com a moça do atendimento (polidamente, pode deixar) e aceito a contra gosto meus 40% de volta. Mas eu sorrio. Sorrio porque eu vou te ver.

Então você não vem.
E eu penso: ainda bem que só ensaiei ligar pra cancelar a passagem. Era só um delírio do meu coração, uma ideia que joguei pro universo pra ver se ele arranjava esse encontro. Esse eu e você de novo.

Mas eu vou pro Rio pra te esquecer. Ou pra pelo menos lembrar o porquê de eu gostar tanto assim de você. Que nem disco arranhado do Marcelo Camelo, que eu ouço lembrando de tão pouca coisa sua. Então chacoalho a cabeça numa tentativa de espantar você do pensamento, no meio do aeroporto.

Sorrio pra aeromoça e ensaio contar pra todo mundo como eu vou te esquecer.
E eu te esqueci.
Mas na volta eu lembrei de você. De novo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Coragem

Eu acredito nos seus olhos, nos seus poros abertos com pelos arrepiados, na sua mão.
Sinto que de todo cosmos, dos planetas e dos incontáveis seres amantes, somos par.
Eu vejo teus movimentos contrários ao que sinto e desejo, mas prefiro crer na minha intuição.

Até que finalmente tiro de minha frente o espelho para ver sua verdade, seu eu, seu todo, sem minha projeção. Chego, então, à conclusão de que era minha a beleza, o sonho e a paixão. O que você não me oferecia, criei, e por engano me apeguei ao que queria, não ao que havia.

Chega-se, então, ao momento de (de)cisão em que largo da tua mão e pego na minha. Deixo você ir, para poder voar aonde me interessa, sem peso e sem pressa.

Como diria o poeta, "coragem amor, coragem". De enxergar a resposta além do que os olhos querem ver, de deixar que vá e que venha, de merecer o que se tem.
O amor vem, mas tem que se dar para ser.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Amor verdadeiro

Há quem diga que quando a gente aprende a se amar, o amor verdadeiro, de outra pessoa, vem também. Finalmente aquela maravilha idealizada vai chegar no momento certo, na hora certa. Mas isso não é necessariamente verdade.

Primeiro porque não acho que amor é algo que aprendemos, mas algo que permitimos, seja em relação ao outro ou a nós mesmos, seja consciente ou inconscientemente. Segundo porque acredito que quando você descobre o que o faz ser você mesmo e deixa-se amar cada pedacinho de suas imperfeições e de suas qualidades (se não todas, uma boa parte), na realidade você se depara com um monte de gente perdida ou nada a ver com você, que antes eram potenciais amores ou amigos.

Não que essas pessoas não existissem antes ou que tenham mudado da noite para o dia, elas estavam lá, mas estávamos tão entretidos com nossas inseguranças, que não olhamos para elas de verdade e achamos que elas poderiam ter algo a ver com a gente, que iriam trazer algo bom pras nossas vidas, mas não.

Pessoas novas também se aproximam e, por incrível que pareça, pela primeira vez nos damos o direito de dizer não e de afastar energias que não queremos por perto, não porque amor é orgulho, mas porque é cuidado e atenção. Porque qualquer coisa não serve mais. Porque conformar-se e adequar-se não é mais prioridade. Mas, sim, ser e receber intensamente, deixar o coração falar e duvidar do que não aquece o peito.

Além disso, não é porque você se ama e se respeita que o amor da sua vida vai bater à sua porta. Você só vai saber com um pouco mais de clareza quais portas fechar e em quais pode bater.

Amar-se talvez também seja entender que ninguém é perfeito, começando pela gente. Idealizar alguém é um veneno, seja o outro ou o ser refletido no espelho. Quem sabe não estaremos prontos para amarmos e sermos amados por inteiro ao acolhermos a nós mesmos, integralmente... Com cabelo em pé, cara de sono e falta de disposição ou vontade.

Amar-se talvez seja permitir que todo amor seja verdadeiro, pois ele já tem morada lá dentro e não se importa mais com o que não mora no peito.

sábado, 26 de setembro de 2015

Família

Pelas famílias que deixam de existir quando acaba o amor...
Quando se quebram, ou se perdem, até se esquecem...

Pelas famílias que são forjadas por pais que recebem crianças indesejadas e que as negligenciarão, as forçarão a trabalhar e não irão garantir sua segurança, seu desenvolvimento como seres humanos, sua formação como cidadãos...

Pelas crianças que não conhecerão o amor incondicional de alguém que as quer perto, que não terão sua comida preferida feita no dia de seu aniversário e que não levarão uma bronca daquelas que constroem caráter.

Pelas crianças que vão passar frio e fome e que terão que ser fortes quando a sociedade as ignorar todos os dias.

Pelas crianças que serão abusadas por pessoas com o mesmo sangue.
Pelas crianças que serão abusadas por pessoas com sangue diferente, mas função parental ou função nenhuma.

Pelas crianças que não terão o direito de serem crianças. De serem amadas e acolhidas.

Pelas crianças que deixarão de ter e ser família porque alguém decidiu que o amor deve ser formatado. Que o amor tem que se enquadrar em rótulos.

E quando o poder é das pessoas que têm medo de conhecer todas as formas de amar, acontecem absurdos. Elas não deveriam poder decidir por aqueles que são os mais puros, cheios de amor e livres de preconceitos.

Cada criança tem sua individualidade, seu jeito, seus traços. Se todos somos diferentes por que as famílias, união do que cada indivíduo envolvido tem de melhor, deveriam seguir um padrão?

Ao invés de dinheiro no farol, deveríamos poder dar luz para o coração das nossas crianças.
Amor e luz.
Mas agora é proibido amar, já já será proibido ser feliz, pois não somos livres há tempos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sobre saudade

Às vezes eu acho que saudade é um sinal do amor. Em outras, acho que é um sinal comum.

No comecinho do amor, aquela pontada de saudade inesperada mostra que devemos prestar atenção no que está acontecendo em nosso coração. Algo novo se aproxima, mesmo que seja de alguém já conhecido, e estamos preparando um espaço dentro da gente para acolhê-lo. Ao mesmo tempo, essa pontada pode ser só uma lembrança de alguém, disfarçada de falta.

Durante o amor é possível sentir saudade de alguém que está ao nosso lado. Pode ser porque a gente antecipa os momentos distantes e até acha que pra tudo aquilo que tem dentro do peito, não haveria vidas suficientes para chegar até o final. Por outro lado, essa sensação pode ser fruto de uma quebra na rotina que vem como aviso, da mesma forma que a gente sente falta (e vontade) quando lembra que no dia anterior não comeu arroz e feijão.

Na despedida do amor, a pontada de saudade é acompanhada de um tipo de dor que só o amor apresenta, que vai mudando e diminuindo até acabar. Mas também pode ser só uma quebra de costume e hábito com que, como em toda dieta, a gente se acostuma.

É difícil desligar o sentir falta do amar, mas a saudade tem vida própria. Se ainda posso e quero ansiar alguma coisa, acho que desejaria algo do amor, mesmo quando confundido com outras coisas.

O que eu ainda espero do amor é que passe, que chegue e que cure. A saudade vem depois.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Fuga

O seu rosto. No meio de uma multidão, encontrei alguém com o seu rosto. Assustei-me com a obviedade desse meu ato falho de querer te ver e ter perto. De te buscar em alguém que não conheço e parar no meio do caminho pra lembrar de como você é. Do que me encantou e que agora desencanta.

A sua voz. Entre tantas outras vozes falantes, uma igual à sua me puxa pela orelha pra perto do seu peito. Da nossa memória. Não acho que tenhamos tido algo nosso, mas tenho certeza de que lembramos de estar juntos da mesma maneira. Não com a mesma intensidade, mas com o mesmo brilho.

Seu trajeto. As linhas ainda marcadas no meu corpo, dos deslizamentos da sua intenção, fizeram-me tomar uma decisão. Meu corpo está fechado para turistas. Não porque não haja descobrimento e ganhos na exploração temporária do outro, mas porque a energia contemplada nesse exercício, para mim, é muito cara.

Das fugas todas que fazemos, das intenções que disfarçamos e das desculpas que damos, a mais incompreensível para mim é a tentativa de escape do amor. Então, enquanto você foge, eu sigo, tentando disfarçar que, na verdade, o que você sentia era pouco. E que esse pouco não foi suficiente para transformar passeio em jornada. Nem seria suficiente para suprir, em mim, os horizontes que habito.

Então, enquanto novos caminhos se abrem, a despedida se encerra. Em frente, sempre em frente, para fugas diferentes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Tatuagem

Tenho certeza de que daquela vez encontrei o amor da minha vida. O único. O cara.
Aquele que representava tudo o que eu queria ter e ser. Que tinha os mesmos gostos, gestos e risos. Os mesmos planos de vida.
Éramos tão parecidos e nos colamos de um jeito... que formamos um mosaico de muito mau gosto.

Lá no núcleo éramos o par perfeito, ideal, mas tínhamos adicionado tantas camadas de desgentilezas e murros emocionais que nos transformamos em uma bola de coisas grotescas. Possessão, descontrole, medo e desamor - um pelo outro e também por nós mesmos.

Ainda acho que aquele era o amor da minha vida.
Mas aquela vida que eu vivia não é mais minha.

Meus risos não se dão pelas mesmas coisas, meus gostos e gestos alçaram outros voos.
Tudo mudou, eu também.
O amor se transformou e o mundo também.

Outras vidas surgem como camadas de pele e há de vir um amor que ficará por várias delas.
Tatuagem.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Dis(a)tração.

Tem gente que nos atravessa com o que não se pode ver. O olhar, a presença, o afeto, a química, a atenção. Um corte transversal: intenção. Atração que distrai a razão e trai os instintos.

Os poucos fios de cabelo branco em sua barba levaram consigo todas as minhas intenções. As boas, as más, as mais ou menos. Todas. De repente estavam agarradas com cada detalhe que meus olhos poderiam devorar. Deram um nó desgrenhado como seus cabelos e eu me deixei ser preso por aquele sentimento incomodamente bom.

Até aí, nada irremediável. Passamos mil vezes na vida por pessoas que despertam as atenções do corpo. Só que aí nos demos. Trocamos falhas e graças, segredos que todos sabem e humildes demonstrações de que somos alguém no mundo.

Toques no ombro querendo que você se toque. Incinerava-me com suas ideias. Libertava as risadas que estavam presas na garganta e as borboletas que quase me faziam levantar voo.

Estou aqui: atravessado, trançado, homem nu vestido de afeto. Dois iguais, mesmo sexo, querer e jangada. E se tem que ser algo, que seja tesão, porque o amor não "é", ele acontece.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

No peito

Atordoante você.
Como uma lanterna na pupila do maçante, alucinante, pulverizante. Você.
Memórias incansáveis de nós.
Lacerando a minha carapuça de quem superou dores inesquecíveis e curou feridas irremediáveis.

Tempo de ir embora.
Que chegou e se foi e agora vem de novo, mostra que se eu ainda tenho que me lembrar de te esquecer é porque você ainda vive em mim, de alguma forma torta e torturadora.

Ah esse tempo que não tem tempo de cumprir seu papel. Me sacaneia.
A cada renovação de neurônios ainda percebo conexões a você.

Ah se coração falasse e saudade matasse, o mundo teria mais histórias do que bocas para contá-las.
A minha boca do peito ainda canta teu nome, mas virão outros nomes, outras dores, outros você.

domingo, 7 de junho de 2015

Procura-se

Procura-se alma que queira amar descomplicadamente.
Que não fique quantificando ou poetizando o amor, permitindo que ele seja o tanto de poesia que transpirar.
Que se entregue, sem medo de se machucar, mas com gana de ver até onde o coração pode ir.
Que não fique preso às formas do corpo, mas às formas com que podemos usá-lo para amar.

Não quero uma história que tenha tudo para dar certo, quero uma história que se dê. Completamente.
Que não se importe com qual é o rumo da minha vida, mas com como eu estou me sentindo agora.
Que não queira contar de seus carimbos no passaporte, mas quantas vezes passou pelo mesmo caminho e, ainda assim, viu beleza e se apaixonou.

Que goste de jazz, mas que também dance Karol Conká.
Além de tudo isso, alguém que queira ficar, mesmo que vá embora.
Afinal, são as vontades que movem o mundo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Túnel pro litoral

Fiquei encantado. Não foi à primeira vista, nem mesmo nos primeiros minutos de conversa.
Parecia que você tinha que deixar abrir uma fresta pra que eu pudesse te ver. Não por inteiro, mas um traço, pelo menos, que fosse verdadeiro. E vi. Fiquei paralisado. E logo pensei: será?

Pela primeira vez eu pedi calma. E fomos. Exercendo o risco de se deixar ser preso pelo amor de alguém. Mas não que fosse prisão, era mais um enlaçamento. Encantamento. Aquele momento libertador quando você não procura mais em outros o que agora consegue ver bem na sua frente. Parece coisa de louco, mas era só um dos tipos de amor.

Fomos. Sem possuir, sem controlar, sem enciumar. Mas eu fui mais que você. Afinal, esses caminhos tortos dos espelhos que colocamos nos outros, acabam sempre com alguém dando um(ns) passo(s) a mais. Mesmo assim eu não me importava. Voltava, sem trilha de pão, sempre que sentia que queria te buscar.

Então, chegou a hora. Não sei dizer se de noite ou de dia, pois a mente estava atrapalhada demais pra perceber fuso horário. Percebi que tentar me prender ao que construí de você era como segurar a respiração num túnel à caminho do litoral. Uma aposta comigo mesmo, puramente inútil. E por mais que tentasse não respirar, sabia que se aproximava, na próxima curva, o momento em que ia ter que dar um profundo suspiro e depois te deixar passar, como ar quente.

É que eu queria ser sorte pra trombar você, sem que precisasse vestir medos e máscaras. Só um biquíni confortável e um pouco de filtro solar.
É que eu queria ter sorte pra você ser o que realmente é. Mas talvez isso fosse azar. Não sei. Cheguei a(o)mar.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Intimidade forjada

Invocava o amor com a força de seis ciganas e quatro leitoras de tarô.
Forçava o desejo e cravava o corpo na intenção do outro como se jogasse búzios.
Eram inúmeras as encruzilhadas e nem me deixe começar a falar da projeção astral - afinal, hoje, projetar é amar em modo narcísico.

Insuportavelmente via o desejo distorcer distâncias e alongar (por demais) situações que nasceram e morreram pontuais. Era um baile dos mortos pela vivência de uma ilusão. Um carnaval com mais cinzas do que dias de duração.

Forjar intimidade - via isso se repetir por todo lugar. Estávamos todos viciados em ver potencial no outro de algo que nem nós poderíamos oferecer.
E na verdade o desejo trocava de pele. De tempos em tempos mudava a carne e preenchia outros olhares.

Não queria forçar nada, mas se pegava com o fórceps na mão. Sua intenção era um crime irremediável.

E ainda torcia para que viesse à luz o amor abrangente, livre... em sua dilatação naturalíssima do impossível.

domingo, 17 de novembro de 2013

Do amor

Se o amor pudesse ser algo, seria acontecimento.
E se até a vida desacontece, quem dirá o amor.

E por que precisaria de provas? E por que seria feio ser um clichê?
No final das contas é uma palavra, que se prova e se exaure em si mesma da boca pra fora.

Os medos, os enganos, os "talvez" não cabem dentro dessa palavra.
A tornam opaca, a transformam em mil outros sentimentos que não o amor.

Entre suas quatro letras caberia, por exemplo, a invenção.
São pequenos detalhes multiplicados em feições distorcidas pelo brilho de um desejo.

Aí a expressão não cabe no grito e o grito foge da vogal.
Se pudesse falar do amor, diria que ele cria portas.
Abri-las ou fechá-las são decisões pontuais em reticências.
Faz parte do círculo da vida, se ela se formasse geometricamente.

Nos enquantos e entretantos estamos abertos.
Entre e não se acomode.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Imune

Olho ao redor e a falta de foco me acalma.
Não piso em palco, não quebro salto, não minto.

Parei de sentir e acabei escolhendo assim, quem diria.
O rei da imprecisão emocional e do descontrole oral, mais um papel.

Como corujas perdidas no horário de verão, que não enxergam, não revelam, não relevam.
Você e eu.

Deslocados;
Desbundados;
Desmundados;
Mas nunca desalmados. Aí que mora o perigo.

Me poupo do lado forte, mais uma safra de safras perdidas, mais uma morte singela e sofrida se aproxima.
E se a gente não amasse, não haveria dor que nos uniria.

E nada nos une.
Nada separa.
Imune?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

that's amore

Ah, que mania as gentes têm de ter medo do amor.
De ferir ou de criar compromisso.

E ainda o associam à mentira, ao óbvio, ao clichê, à precisão de provas.

Quê isso!

Amor não é compromisso.
Nem é verdade, pois não há prova.
O que há é o gosto, o gesto, o tremelique.

O amor é inóbvio.
E os clichês? Podem ficar para aqueles que não o veem de olhos fechados.

Se for alguma coisa, se for falável ou crível é um suspiro. Um olhar trocado ao meio dia, uma conversa inesperada cheia de alegria. Nada que possa ser provado, mas sentido e refletido em nossa pele, no arrepio que o seu sussurro causa em nossa alma.

O amor é eco do silêncio.
E é quem cria, não a criação.