quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A(deus)

(à Salvador José Troise, in memoriam)

Sabe quando você fica sem palavras?
Sabe aquele momento em que tudo fica parado, mesmo em movimento?
É estranho, eu sei, mas com certeza você já esteve nesse mesmo lugar sem encontrar ninguém nem nada que pudesse explicar esse momento.

Assim me sinto, mas nem imagino como ou se deveria explicar tudo isso.
No lugar onde estou encontro uma galeria de momentos de amor e percebo que não há despedida.
Mesmo que não haja Deus ou vida após a vida, as energias boas de pessoas excepcionais nos acompanham.
As lições, o aprendizado, o cheiro de tabaco no cachimbo e o apelido não podem ir embora assim, não vão embora de nenhuma forma.

Sei que não merece lágrimas, mas é um jeito do meu corpo expressar que estou entendendo o que está acontecendo, com a certeza de que de alguma forma a sua obra boa, seu carinho de pai e avô, permanecerão.

Enquanto isso, lembro demoradamente de cada coisa, objeto, paisagem e aprendizado que pude viver ao seu lado.

Alguns dizem que sou boa com as palavras, mas essa é a única forma que eu encontro de homenagear sua memória, na verdade, a minha memória de você.

A(deus).

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Cicatriz do coração fraco

Era amor mesmo.
Por mais que não parecesse, mesmo no desencontro de tempos o amor acontece.
A demora da hora entre uma vida inteira e outra não vai cicatrizar feridas que devem estar lá, para que, assim, o amor ainda possa ficar na nossa pele.

Talvez não seja só desilusão, talvez seja mudez da intuição.
Às vezes é preciso sentir a ferida aberta para ainda deixar os caminhos do coração desimpedidos.

Cicatrizes podem ser bloqueios para o encontro entre almas.
Boa cicatrização deixa o coração fraco, opera, então, o amor descaso, só de caso, bem raso.

E como se fortalecer sem jeito?
Rasgar de novo no peito, o formato do desejo que temos de ser feliz.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Ser coisa nenhuma.

Quem diria que o amor adolescente, infantil, é o mais inteligente?

Ele simplesmente é o que nasceu pra ser: incondicional, inquestionável, impossível, projetado, entre tantos outros "in", "im" e "ados".

 É, enfim, amor puro, sem medo, sem experiências anteriores pesando no seu caminhar, sem corcundas e feridas, sem o excesso do passado arrastando nosso calcanhar.

Exatamente por ser adolescente, não chega ao fim, é interrompido por algum motivo bem maluco ou bem racional, comum na impulsividade do novo. Então, fica na memória e na saudade do peito.

Sempre queremos acreditar que a compreensão do amor e a possibilidade dele ser verdadeiro vêm com a maturidade, mas, na verdade, quanto mais aprendemos, mais difícil fica de sentir o irracional. Quanto mais andamos, mais impossível é amar o que não precisamos, pois a única coisa que levamos pela vida e depois dela, é o que não conseguimos deixar pra trás: nossas vivências, nossas loucuras e nossos amores, enfim, a bagagem mais pesada do mundo.

Precisamos amar nossos filhos, amigos, parentes, entre outros entes, mas o amor gratuito, aquele que olhou, bateu e nem precisou ter voltado, não tem sentido pra gente.

Os adultos procuram sentido em tudo, faz parte da filosofia de ser qualquer coisa, o que finda em uma vida sem sentidos e sem ser coisa nenhuma.

Afinal, a pergunta nem é "o que é o amor?", mas sim "como podemos voltar a amar?".

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Balão


Mover-se é difícil.

Mudar as tangentes que limitam nossos caminhos tem um tom de impossível.
Mas aí que nos deram o pensamento...
E deixaram que fizéssemos reforma, ao menos, nos traços ideais.

E é nele que me liberto,
No pensamento aberto e cheio de preceitos,
que meu ego não deixa ir muito longe,
mas que a alma faz voar que nem balão.