E como pode coisa dessa? Menina que já tem idade impressa em documento agigantar de um dia para outro? "É doença...", disse a tia, "é loucura", disse a vó, "é contagioso", pensou consigo mesma. Mas antes fosse.
Já fazia algum tempo que sua pose encolhida não ornava com o abrilhantado olhar que semeava por corpos outros. Sentia um incômodo na ponta dos ossos, mas como quem agarra um sonho, não deixava que eles esticassem nem um pouquinho só. Seguia encolhida para parecer pequena, pois acreditava que a percepção dos outros estipulava seu tamanho e era inconcebível mudar isso. Já pensou o choque?
Um dia se viu presa frente a uma poça d'água e percebeu um outro eu distorcido no olho de quem olhava. E quem era aquele que olhava? Era ela. Era ela? Pensava, pensava, pensava. Refletia sobre como ela nunca tinha olhado para o próprio reflexo. Nunca tinha tentado se ver, só via o que os outros diziam ver, afinal a maioria sempre está certa, não é mesmo? Não. Começou a pensar e a se olhar e a acolher seus sentimentos, seus medos, seus erros, seus eus e de repente as pernas, os braços, os dedos, a cabeça e por que não os pés, assumiram outro tamanho. Maior, quase contundente. Assustada, procurou algum lugar em que sua imagem coubesse, pois aquela poça era pequena demais àquela altura.
Resolveu trocar a opinião deles por um espelho e não foi que deu certo? Conseguiu se ver e o espanto e medo que a dominavam foram trocados por um sorriso. O encolhimento foi exorcizado por um brilho que nunca tinha visto antes: o seu próprio. Sem desvios em lentes alheias.
Saiu andando com seus passos de gigante, deixando para trás a aparência que não lhe cabia mais. Pararam ela na rua mais vezes do que seus grandes dedos poderiam contar, sempre dizendo: "nossa menina, como você cresceu!" e ela respondia sorridente a cada pessoa que estranhava seu tamanho: "não cresci, não, só parei de me encolher".
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Náufrago
Ele. Abriu os olhos em terra desconhecida. Tudo estava tão
claro que chegou a ficar cego por frações de segundo. O que era aquele deserto
todo? Aquelas nuvens de areia pareciam desencobrir encostas não planejadas -
acontecidas.
Sem abrigo nem espelho, tentava olhar em frente para ver o
caminho, mas sabia que aquela direção era só acontecimento, não fim. Tropeçava
a cada ideia que tecia enquanto tentava despertar naquela paisagem que parecia
definida, mas que ele não conseguia por contorno.
Ele. Que mesmo tendo o conhecimento de cinco vidas e a
experiência de três não havia vivido nenhuma. Sentiu-se mareado. Talvez o
ambiente fosse convidativo para essa sensação, mas não havia motivo. Motivo.
Palavra que supostamente devia trazer sentido, mas naquele momento era só três
vogais e seis letras.
Era inevitável que em algum momento se deparasse com seu
reflexo. E quando aconteceu, aproximou-se de sua imagem para ver com olhos
céticos: o que havia ali? Como se observasse algo novo, viu em seus olhos,
enquanto passava a mão em seu rosto, raiva e medo daquele território. Seu
corpo. Conseguia ver as não vontades todas que sentia e frustrava-se por não
conseguir ver o que queria. Náufrago em seu consciente, lidando com os
silêncios que não podiam mais ser encobertos por outros sons, ainda ouvia ecos
de pensamentos, mas sabia que a hora de lidar com o que não estava lá fora chegaria.
Ser era pairar em águas claras e meio sem
sal naquelas manhãs. Náufrago em si, ele emergia. Bom
dia.
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quarta-feira, 7 de março de 2012
Guarda
Refletia,
fora do espelho, se o vendaval passaria a ser tempestade e o susto um falso
alarme de que uma gota estrondosa cairia em um sentimento.
Mas a
estabilidade era improvável, maquiada como um grande amor e disfarçada de
mudança. A esperança cegava as inconstâncias e colocava uma barreira entre o
amanhã e o depois.
Vai saber
que verdades esperavam no corredor ao lado, pra pousar, que nem borboleta, na nossa
razão. Às vezes é melhor esperar mesmo, sem ser de ninguém a alta guarda.
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