domingo, 23 de agosto de 2020

Eu tenho sentido raiva

Lembro-me bem do dia em que me deitei no divã e disse: eu não quero mais sentir essa raiva. A minha demanda à analista era a tradução de que a minha raiva não era permitida.
Como pode uma mulher bem-educada e banhada em pele e intelecto de privilégios sentir raiva?
Por que eu deveria ter o direito de sustentar esse sentimento que não se adequava às minhas fantasias de mulher boa, justa e calma que tanto me quiseram ser?
Qualquer coisa que endossasse a raiva libertava uma versão que eu – e tudo e todos que produziram esse eu – não podia controlar.
Ao sentir raiva da raiva que eu sentia, era como se eu tentasse emudecer em vão as vozes que eu não ouvia, dando força e ouvido a outras que aprendi serem melhores, mais fortes e mais dignas de escuta do que a minha. 
Em um silêncio de mim mesma, ecoava apenas a certeza de que qualquer raiva não era bem-vinda. Não de mim, pelo menos. Eu não podia ser mais uma vociferando o que sentia. 
E quando percebo que novamente estou caminhando de costas em direção ao meu próprio abismo, por estar respondendo ao outro mesmo que em silêncio, eu fico com raiva, mas a ela tenho tentado dar sustento.
Porque a raiva de mim mesma nunca foi por ninguém contestada, nem dita com qualquer uma das letras, nem sequer pensada. Era como se eu tivesse normalizado a raiva endereçada e fantasiada a mim e por mim.
Mas esses últimos dias eu tenho sentido raiva e deixado ela sair de mim para que, quem sabe, ela encontre um destino, tal qual uma carta sem endereço, guardada sempre a olhos vistos, mas teimosamente intocada.
Eu sou essa carta e também sou a raiva que a envelopa e toda a sorte de sentimentos que talvez dela saiam se eu um dia conseguir me permitir abri-la.
Eu tenho sentido raiva em vez de por ela ser engolida. Tenho tentado falar, faltar e falhar dentro dos limites dessa raiva de mim disfarçada de perfeccionismo. Sair da boca do próprio abismo (e da minha), tentando encará-lo de frente: movimento da raiva que eu tenho sentido.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

dia 23 - ou a tautologia do impossível

Reparei hoje até onde meus cabelos brancos estão chegando. Já passam de mais da metade da circunferência da minha cabeça. Eu que muitas vezes me envenenei para escondê-los, acho graça.

Nesses dias de estranhamento e esvaziamento do espelho, a sensação de cansaço de olhar pra dentro se amplia para além dos quarenta minutos semanais de análise lacaniana – acho estranhíssimo isso do divã ser, agora, a minha cama. Sempre fui muito de presenças e tatos e cheiros. Agora não sei mais.

O tempo que não passa e voa permite cultivar afetos e cansar da própria comida. Ficar presa no entre da dicotomia da saudade de quem não vejo e da vontade de ficar em silêncio. Não temos silêncio no isolamento. Mesmo sem filhos, sem gatos e cachorros, fico com meus pensamentos e o barulho dos carrinhos de compras do supermercado ao lado de casa.

E que vontade de ir correndo abraçar e beijar meus irmãos e amigos contraposta ao cansaço e ao esgotamento energético desse cenário (im)possível. Seria bom o vazio. Sem notícias, sem absurdos presidenciais e neoliberais (não necessariamente nessa ordem), sem desabafos disfarçados de piadas torpes sobre o fim do mundo. Mas aí lembro do vazio de dentro, a tal da falta angustiante, e quero o inexistente cheio. Fico com o nem meio cheio e nem meio vazio. Fico comigo.

Reparei hoje nos meus cabelos brancos e pensei que causarão espanto nas pessoas que não me veem há algum tempo, pois eles já se espalharam para terras jamais d'antes vistas. Antes se escondiam no risco do cabelo logo antes da divisão desleixada que faço em minha franja. Não mais.

Pensei no espanto dos outros e logo em seguida atinei que talvez ninguém nem repare.  Não por desinteresse, mas porque penso que será preciso nos conhecermos de novo. Nos reconhecer no outro que virou foto estática ou representação 2D. Reestabelecer ou reforçar os laços, a troca, a união – acho que talvez eu seja analógica demais para tempos de pandemia. 

Ainda duvido dessa reforma moral e social propiciada pela crise do codvid-19, com mais consciência social e de classe acompanhada pela vontade de, se não lutar, ao menos apoiar a dignidade humana – acho que talvez eu seja crítica demais para tempos de distopia. Mas ficaremos tanto tempo sem saber o tempo que precisaremos ficar sem amar corpo a corpo nossos amados que vamos precisar de segundos encontros para nos reconhecermos novamente. E nessa tautologia do impossível, meus cabelos são o de menos.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Espera

Esperava no portão e sorria como se seu coração viesse buscá-la.

Mesmo que parecesse que ela estava ansiosa, que todos os rebuliços do mundo habitavam seu estômago, ela calmamente pairava encostada nas barras de ferro do portão cinza daquela rua movimentada, amparada pelo vão do tempo que passou e pelo que ainda acreditava que viria.

"Nada nas mãos para se distrair?", pensava uma moça que passava... Como podia, nessa nossa realidade superacelerada não haver nem um fone de ouvido, nem um livro, celular, ou o que fosse para distraí-la dos momentos perdidos esperando? E o que será que ela esperava?

Altas expectativas passeavam pelas mentes que atravessavam as possibilidades de seus passos... Planos diversos foram feitos para ela: iria começar uma grande viagem, faria uma excelente mudança na carreira, estaria prestes a passar do gostar pro amar, da intenção pro peito de alguém, teria um filho... Nada disso. Enquanto não cruzava nem descruzava olhares com os transeuntes, apenas estava lá, presente, naquele espaço-tempo específico, absorta no momento que se apresentava tal como era: nada. Absoluta e totalmente nada, se nada fizéssemos dele.

Se ela contasse aos curiosos que nada esperava, seria questionada, teria seu corpo vasculhado à procura de alguma doença ainda a ser descoberta. Como podia, nessa encruzilhada que é a vida, não esperar por algo? Não se lançar a algum objetivo, alguma meta a cada possibilidade de segundo que a engrenagem do relógio apresentava?

Se ela respondesse, seria com seus pensamentos em mãos, seus sentimentos nos olhos, as angústias nos ombros e um discreto sorriso que revelava um segredo que ela não queria guardar: a espera estava no olhar de quem queria chegar a algum lugar e, para ela, bastava apreciar - mesmo que por uma brevidade de intenção - o tempo que acontecia e a vida que a ela se dava de presente, incessantemente.

Teria desistido da vida? Não. Havia desistido de transformar o viver em destino, em porto que nunca chega. Tinha, pela primeira vez, vivido. Mas não por muito tempo, pois o que fizemos do mundo é demasiadamente cruel para se viver somente.

Enfim, para o alívio dos que não conseguiriam entender esse seu traçado no mapa do mundo, seguiu seu caminho, deixando pra trás o portão aberto para quem quisesse se atentar à fugacidade do que é viver.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Mar

Universo desfragmentado em gotas, desmontado em microssegundos que não repetirão a mesma forma de antes. Geografia mudando a cada instante, futuro itinerante da força e do carinho das ondas. Bordas e fronteiras: todas imaginárias.

Como buraco sob o lençol do mar na beira da praia, que assusta e entrega ao próximo instante o que vai acontecer, a vida mergulha na gente e se escancara. Onde falta palavra sobra sal. Onde se arrisca um mergulho no outro, fica a intuição e a ilusão de emergir em si.

A ânsia de cuidado que desembrulha no estômago parece ancestral e lembra aquele tempo de flor no deserto. Ainda não choveu por aqui, mas a cicatriz promete céu cinza e trovoada. Tempestade no oceano, prelúdio do que nos precede.

Força cósmica, ilógica e a coragem de ser feliz que eu não perdi, guardei.
Fico aqui, esperando o tempo me deixar escolher ter tempo disso. Finjo que não sou eu a virar ampulheta e dou corda na promessa do (a)mar - (o) que quer que seja.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Grande

Eu gosto de animais grandes
De baleias a elefantes
Porque por mais que seu cérebro não acompanhe seu coração pulsante
Seu órgão bombeante de sangue
Comporta mais amor
Do que o de qualquer ser pensante

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A porta

Porta fechada.
Finalmente chegara em casa. E se apoiava contra a porta por alguns segundos, antes de continuar o dia. Era um daqueles estranhos momentos em que parece que paramos o mundo para podermos seguir rodando pela vida.

Aquele pânico, aquela obsessão, aquele mar de sal que escorria de seus olhos, se preparava para a última estreia. Para a última apresentação solo no chão da sala.

Lembrar-se do que eram juntos e aceitar o que são separadamente, agora, resgatava-a. Via que não poderia dar todos os seus quereres para alguém que não reconhecia a despretensão ou o amor gratuito e que fazia do coração um lugar de tortura emocional.

Por que quereria, por que seria, por que se colocaria ali?
Querer aquilo era ser aquilo. E estar lá, mesmo que em negação em um canto esquecido, atestava sua submissão. Mas não mais.

Revisitou a sede de seu (ím)par. E repetiu em sua mente pela enésima vez os piores e melhores flashes, intercalados para que todos tivessem força igual. Mas, na disputa de braços, as melhores memórias admitiram derrota.
Foram-se, uma a uma, sem despedida, sem olhar pra trás.
Era uma sessão de descarrego sem monoteísmo, puramente egocêntrica.

Esvaziou o lado desalumiado e o fundo do peito. Relembrou seu nome e quem era.
Até o ponto em que o outro parou de fazer sentido. E o vazio que tomou o lugar da dor propiciou um novo início.
Porta aberta.

domingo, 9 de abril de 2017

(Des)pretensão

(Des)pretensiosamente quero te amar. Com todas as intenções que esse verbo carrega, como onda do mar que leva oferenda e mau agouro, quero te dar o infinito que me habita. Quero que ele cruze o seu, até quero que ele cruze com o seu e gere maravilhas que só duas almas que se dão ao luxo de estarem perdidas são capazes de criar.


Em um murmúrio ou grito, quero te mostrar todos os anseios que me travam, pra você também me mostrar os seus. Quem sabe, assim, abaixamos o freio de mão e debandamos pelo mundo.


Quietos e mal intencionados, os nossos desejos hão de convir que esse nosso amor, que essa nossa força cósmica, não devem passar batidos. Sinto que, enquanto a gente se beija, nossos hormônios, medos, corações e até hipocrisias bolam um plano pra convencer o universo a deixar nossas vidas seguirem juntas.


Depois de tudo isso, ainda restará a aprovação consciente de que queremos ser tudo isso que somos quando estamos juntos: eu e você. Vai faltar juntar as consoantes e as vogais que terão o poder supremo sobre o nosso presente, expressando verbalmente o que o arrepio da pele já mostra: eu quero.

E depois de todo esse complô inconsciente que nossas almas, mente e corpo fizeram, vai nos restar, meu caro, sermos felizes, sermos dois, sermos nós e a realidade que vier depois.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Areia e pedra

Na areia branca, alguém. Olhos fechados. Procuro alguma fresta entre seus cílios para ver se acho a porta de entrada. Nada.

No cimento, me racho em cânions entre o que tenho, o que faço e o que sou.
Insisto, que nem goteira em piso seco, em quebrar concreto pra fazer terra infértil virar flor, sentir amor, ser mais que cinza.
Achei que a aridez estava fora, mas a vida é uma casa dos espelhos que, mesmo distorcidos, só podem oferecer reflexos.

Na pólis pred(i)ada, alguém. Olhos nas mãos. Procuro algum desvio no olhar fixo para ver se consigo furar a bolha. Nada.

Ao redor, o que acontece dói. Nos perguntamos se há saída para tanto apuro, pra tanta gana de estar certo ao invés de fazer menos errado... Mas o sentimento que ainda existe, já enuncia seu fim.

No meio, não sobra coração na produção mecanizada. 
As batidas são rebatidas pela rapidez imputada pelo raciocínio lógico.
Não há lugar pra ansiedade no caos, é lá que ela é toda.

O presente flutua no infinito e o desamparo de viver deixa o agora pra depois.

A falta de tempo é medo.
A ausência da falta não é um não-estar, mas um já-estar acostumado a ela.

Nas esferas de um planeta raso, tentamos ser sólidos.
Mas até a areia, pedra desfeita, memora que um dia dissipou tudo que achou que era.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pequenos desesperos do cotidiano

Sentado no bar, confraternizando dores e alegrias, de repente foi assolado por tudo o que significava viver aquele momento. Viu o garçom, olhou desesperadamente para os que estavam ao seu redor, sem conseguir expressar de forma alguma as reviravoltas de suas entranhas.
O rosto continuava sereno, os olhos só revelavam seu dentro se alguém realmente quisesse interpretá-los. Nada.
Entre todas as opções do cardápio, não encontrou nenhuma.
Olhou para o copo e logo veio aquela ideia de meio copo cheio, mas o dele estava vazio - completamente vazio -, a cerveja tentava acalmar seu sangue, ao menos, já que seu dentro estava incendiado.
Perante àquele vácuo privado, achou que conseguiria falar tudo que pairava ali, como elefante, sobre ele. Abriu a boca e todos o olharam, queria pedir ajuda, mas acabou pedindo:
- Mais uma, por favor.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Cem metros rasos

A gente se apaixona pelo desconhecido. Pelo friozinho na barriga de não saber o que vem em seguida.
Poucas são as vezes em que realmente temos interesse em conhecer quem está recebendo nosso afeto. E, muitas vezes, quando é inevitável conhecer esse alguém, pensamos "o que que eu estou fazendo aqui?". Mas essa é uma das inevitabilidades da vida.

É como se o começo ou a tentativa de amor fosse uma prova de cem metros livres. Basta mergulhar e você pode nadar em qualquer modalidade, apenas se dedicando a cumprir aquela distância. E como é bom isso de ser livre e você poder escolher a modalidade, mas... a raia acaba. O outro lado da piscina chega e, mesmo sem fôlego, precisamos sair dela.

De repente você se dá conta de que não está mais na água. Há linhas brancas no chão e competidores alinhados a você para ver quem vai ser a mulher mais rápida ou o homem mais rápido do mundo.

Os cem metros livres viram cem metros rasos. E não só como nome de prova, mas como profundidade de sentidos. O livre se transforma no mais eficaz e o momento inicial do desconhecido vai, tímida e tristemente, se transformando em prova. Então, do nada, você tem que se mostrar a melhor pessoa do mundo. Pelo menos daquele mundo, naquele momento.
Mas será que precisa ser assim?

O amor se transforma quando a gente conhece alguém e deixa de lado as modalidades, as distâncias a serem cumpridas, os treinos... Quando a gente esquece o mergulho e entra na água de barrigada.

E aí vem você. Bala de canhão no lado fundo da piscina. Corrida descalça no chão de terra batida.
Sem campeonato, só (des)graciosa, mas verdadeiramente, alegrando a vida.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sou

Há certo tempo, eu achava que tinha que ser perfeita em tudo. A melhor filha, a amiga que nunca erra, o amor que nunca falta, a profissional reconhecida, o exemplo.

Há não muito tempo, eu achava que se nunca viajasse pra fora, a vida não teria valido a pena, que se não soubesse dirigir e tivesse um carro antes dos trinta seria motivo de vergonha e que se voltasse a morar com minha família ia ser ridículo.

Aí eu vi que na verdade não era o outro que queria tudo isso de mim, era eu mesma. Que não eram as pessoas ao redor que iam se decepcionar, mas eu mesma, pois quem vive meus dias sem esses itens de status, sou eu. Cada um está mais é preocupado com sua própria vida. Isso me incomodava demais. Acho que principalmente pelo fato de eles estarem certos.

Eu ainda quero muitas coisas, mas não preciso delas. Algumas das metas se mantêm, é importante ter metas, mas só como ponto no horizonte, para servir como um norte. Acho que o que eu consegui ver é que ir um pouco em direção aos outros pontos cardeais me salvou de mim e de toda a nocividade que eu me causava, achando ainda que a cobrança era do outro.

Essa coisa de aniversário tem sido um peso pra mim há muito tempo. Nunca soube muito o porquê e acredito que talvez em análise descubra, mas acho que existe uma pressão de pensar até onde cheguei, onde estou, para onde irei, principalmente considerando a idade e o que todos esperam que eu já tenha nessa época.

Há não muito tempo, resolvi deixar um pouco de lado a preciosa imagem que tinha construído de mim e fui tentar ver o que é que tinha pra mim além de mim. Me perguntava o que será que eu era além do que eu esperava. E não ache que vou colocar aqui que encontrei algo extraordinário, até porque nem acho que a palavra certa seja "encontrar". Mas eu senti que eu não sou nada demais.

Nossa! Como assim? Você está se depreciando? Não, porque também sinto que não sou nada de menos. E foi um alívio. Claro que esses alívios passam e ainda bem, mas consegui me enxergar com mais verdade e olhar pras pessoas ao meu redor com mais verdade.

Aceitei o fato de que posso e vou errar, de que vou ser o pior e o melhor de mim, algumas vezes demais, outras de menos, mas que independentemente de qualquer ponto da curva da vida em que eu esteja, eu vou ser eu. Com imagens construídas ou não. Com carro ou não. Com passaporte carimbado ou não. Com erros e acertos, conquistas e perdas, vergonhas e orgulhos, eu ainda vou ser eu.

Ainda vou aprender muito como filha, errar muito como amiga, faltar com amor e ser um exemplo a não ser seguido. Quanto ao reconhecimento, muito mudou. Uma das maiores lições e honras da minha vida foi perceber, de verdade, não só da boca pro mundo, que reconhecimento não vêm em números, palavras ou apertos de mão, mas em olhares e em momentos de vidas que eu não vou acompanhar ou saber, mas construir. Ser reconhecida sem que ninguém me reconheça é algo indescritível. Sou muito grata a mim mesma por ter me arriscado e tentado me aproximar da minha essência. Claro que não fiz nem farei nada sozinha, mas tudo na nossa vida parte da gente.

Não estou liberta ou em paz, nem me achando ou me humilhando, só aceitei que no fim das contas e das linhas eu sou eu e isso basta.


domingo, 22 de maio de 2016

Abandono

Eu te espero voltar.
Como a mãe que espera não só o pródigo, como o cão que espera não só o mestre e como o filho que pode ser tanto aquele que ainda não sabe que a mãe não o abandonará, como aquele que ainda não conseguiu entender que ela o abandonou.

Ah, se fosse mais um caso de coração partido por um parceiro romântico, um pouco de tempo e brigadeiro talvez resolveria. Ou se fosse um caso de desordem familiar, talvez alguns anos de terapia ajudariam. Mas não estamos falando do clichê.

O abandono de que falo não fui eu que sofri, mas também o sinto. E além dos animais, das crianças e dos idosos, passivos desse horrendo verbo transitivo, que apesar de pedir complemento, escolhe deixá-lo para lá, existe também o abandonado ativo: que abandona a si. Assisti-lo dói e faz a gente querer acolher, assim como o animal, a criança, o idoso. Mas quando falamos de um abandono de si, aquele que abandona e o que é abandonado repousam no mesmo corpo e é só esse corpo que pode readmitir o encontro, o acolhimento.

Quando você resolver voltar, quando desistir de desistir de si, estarei aqui, além desse tempo em que você se abandonou e saiu por aí. Continuo aqui.
Eu ainda espero poder te ver voltar e peço que volte logo, porque eu sei que você se sente falta. Eu também.

sábado, 21 de maio de 2016

Vidas

Há vidas que têm dificuldade de permanecer em constante laço com o chão. Preferem o atrito dos amores, das dores, das nuvens. Não se perdem, pois não tem como objetivo encontrar-se. Voam e vivem, mas sofrem quando precisam pousar. Afinal, as relações acontecem quando os corpos tocam a terra, mas se eternizam na etereidade dos sonhadores.

Há vidas em que não importa ter onde morar, se se é proprietário das vontades que se acredita ter. A elas fica a ilusão-verdade de serem donas de si.

Há vidas que têm que lutar para viver. E não é na gravata, no que se considera trabalho, na renda. É na resistência de suas células, de suas almas ao que o mundo tem para oferecer.

Há vidas que não querem ser vividas e passam despercebidas pelos olhos do tempo. Outras que se aprisionam em seu próprio querer e definham, lentamente, na vontade de ser o que não desejam.

Que vida vivemos?

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Deixe

Deixe o cabelo desgrenhar, a barba crescer, as noites passarem mal dormidas.
Não se depile. Deixe suas células e seus pelos sem cortes, sem aparas.
Cresça inteiro de novo.

Tente se reconhecer.
Não sinta fome, perca a ideia que tinha de quem você era.
Perca horas olhando pro teto. Dê a si o direito de não ser produtivo. Só seja qualquer coisa semiviva.

Atinja o lado baixo de si. Reconheça que está ali e respire.
Espere passar. Lute com tudo na sua cabeça que diz que não dá mais ou que quer voltar atrás.
Dê tempo para o tempo que não quer fluir.

Finalmente durma. E acorde.
Abra os olhos, mas cuidado com a claridade.

A selva que antes o ameaçava com predadores e plantas venenosas, aos poucos se abre em uma clareira. Ela teve o espaço de ser e agora vai ter espaço de abrir outros ciclos.

A intensa dor que sentia e impedia de pensar em qualquer coisa que não ela, vai anestesiando.
Ela pôde ser sentida em toda a sua intensidade e, aos poucos, perde sua função, sua pulsão.

Veja onde esteve, onde está e onde quer tentar.
Vá. Deixe seu cabelo, sua barba, seu pelo, seus medos, como preocupação para tempos de recolhimento. Esse não é um deles. Não mais.

Vá e deixe. Se deixe. Ser.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Fronteira

Há dias não durmo. Fico cansado durante dias e noites, mas quando os olhos fecham, encontram uma mente intranquila. As pálpebras ganham mais e mais peso enquanto minhas calças se alargam ao meu entorno. E mesmo meu corpo mostrando ser imperioso o descanso, ele me trai em desejos e lembranças que constrangem e doem demais para serem desligados.

Deparo-me com uma visão de mim como terreno neutro. Nem guerra, nem paz. Nem dor, nem conforto. Plácido e revolto, meu rosto, palidamente corado, não desenha começo ou fim. Refém de ocupações que a ele pertencem.

Fumante passivo. Monumento que se torna paisagem, não atraindo olhares, mas estando presente no campo visual de todos que passam. Contenho sentidos provisórios que dependem do olhar do outro para existirem, mas que só são sentidos em mim.

Uma imagem nítida de meu corpo como um território de fronteira me amedronta, persegue e faz-me desviar do caminho. Perco-me em rotas familiares. Linhas imaginárias me atravessam, trópicos sem equador me tornam tórrido.

Fronteira: nem cá, nem lá, mas entre. Ponto de apoio político para apátridas, demarcador cultural para amnésia, porto (in)seguro para refugiados.

Há dias não durmo. Mas sigo marcando espaços, fazendo laços entre territórios que não querem, mas precisam estar ligados. Mesmo cansado, sinto que, de qualquer forma torta, abrigo uma revolução.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A solidez dos relacionamentos líquidos


Então, de uma ideia que tenta transmitir certa liberdade, a liquidez dos relacionamentos se tornou obrigatória. Entre amigos e amores, as palavras de ordem são “liquidez”, “amor livre”, “encontrar-se” (perdendo-se em mil outros corpos), “viver o momento” etc. Não que haja um problema em viver e se relacionar dessa forma, mas ela se tornou mandatória. Quase não há escapatória dessa maneira “inovadora”, mas pré-moldada, de se relacionar.

Se você descobre que, na verdade, prefere não ficar com várias pessoas, que não se sente bem numa liquidez em que o cuidado e o carinho escapam pelos dedos, você está atrelado a uma ideia de pertença e domínio que é retrógrada. Porém, escapa de alguns que não é o fato de não se sentir à vontade com um relacionamento aberto que as cobranças serão feitas de uma maneira mais intensa ou que até existirão. Toda obrigação prende a gente, mas ela pode estar presente tanto em alguns relacionamentos "tradicionais" quanto no fato de necessariamente precisarmos nos relacionar dessa maneira "livre".

Falta um senso de responsabilidade ao se relacionar com o outro. Responsabilidade pelo que causamos e pelo que queremos. Pelo que causamos por acharmos que o outro se enganou sozinho, que construiu expectativas sozinho, ou até que errou sozinho. Não, em um relacionamento nada acontece sozinho, nem o erro, nem o acerto. Já a responsabilidade pelo que queremos é assumirmos para nós mesmos o que procuramos, o que podemos oferecer e o que esperamos ter de volta. Posicionar-se e assumir o que desejamos implica eliminarmos possibilidades de relacionamento com pessoas que poderiam nos proporcionar momentos muito bons, mas que só seriam bons até determinado ponto, virando o avesso disso a partir do momento em que percebemos estar fingindo ser algo que não somos para cativar a atenção dos outros.

Acredito que a liquidez está tão em voga que hoje parece estar sólida. Se tornou um obstáculo para o que poderia acontecer de forma natural, mas que encontra uma barreira por ter que respeitar a liquidez do outro, que agora não pode querer se envolver de maneira mais profunda, e até se propõe ser líquido só para tentar conquistar alguém. A monogamia não está na moda, a tendência é ser plural, mas as tendências não deveriam ditar comportamentos, mas ser reflexo de determinado grupo. Sempre podem (e devem) haver exceções.

É praticamente intransponível o limite imposto por alguns relacionamentos descomprometidos e líquidos. Ficamos presos fora ou dentro deles e essa liquidez se transforma em um muro, colocado entre uma possível ponte entre o eu e o outro, barrando uma conexão que consiga vencer os vapores do que se entende por liberdade, mas que aprisiona os corações, por vezes no lado raso das relações.

Nos levamos tão a sério que o que era sólido e poderia derreter, hoje é líquido e tende a se solidificar e tornar fronteira entre o que é esperado e cultivado pela sociedade e o que somos e queremos com todo o coração.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Primeiro de abril

Foi no dia 31 de março de um ano bissexto que comecei a amar você. Fiquei preocupado de descobrir no dia seguinte que era mentira. De acordar enviesado e me irritar com um pedaço de você que ainda não conhecia bem. Ainda ficava desconfortável com novidades.

Amanheci tranquilo, observando como meu humor evoluiria. E como meu amor por você evoluiria.
Fiquei em dúvida se toda essa pressão alteraria algo, mas logo lembrei que se fosse pra ser, nada atrapalharia.

Na hora do almoço me senti um pouco sufocado pelo peso da sua presença na minha vida, ao ver uma outra moça bonita e não ter vontade de falar com ela, como teria no dia 29 ou 30.
O que aconteceu foi que o amor evoluiu, nada atrapalhou e não tinha mais "se" no era pra ser. Simplesmente era.

Foi no dia primeiro de abril que a mentira mais verdadeira da humanidade contou sua história e se inscreveu na minha: o amor.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Jaula

O que podemos fazer um ao outro sempre me encantou.
A mão no rosto para conforto, o gesto da criança fazendo carinho, o abraço tímido de duas pessoas que se descobrem par, o perdão entre pais e filhos, o sim.
O preparo de uma refeição para a partilha, o choro solidário, a parceria na hora de lutar e até o incentivo de um desconhecido que ouve verdadeiramente sua história e dedica toda a energia de seu coração para desejar que você seja feliz, sem vínculos.

Porém, o que mais me surpreende é quanto podemos nos desligar desse laço de afeto humano para fazer algo só por nós mesmos. E vamos em um egoísmo tão cego que, depois de derrubarmos todos ao nosso redor, só resta nosso corpo, que, no fim, também precisa cair. Chegamos a precisar vencer a nós mesmos. E nem notamos que somos o inimigo, desde o início.

Assusta-me o quanto ainda reverbera uma suposta superioridade sobre os outros, sobre os animais, sobre a natureza. O quanto emerge em alguns um sentimento de competição e de "mais saber" que supera qualquer tentativa de amar e respeitar o outro. É nessas horas que suspeito que o eu é maior e mais forte que o amor.

Seja em câmaras de tortura ou de deputados. Em amores nascidos ou abortados.
No dia a dia, na falta de empatia. No considerar o diferente invisível, em marginalizar uma vida que, assim como a sua, é vida.

Cada vez me sinto mais colada e ao mesmo tempo distante de tudo isso. É como estar solto dentro de uma jaula, que nós mesmos trancamos e jogamos a chave longe.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Estranho

Estranho como nos tornamos estranhos. Eu e você.
Do lugar em que eu te via, sentado do outro lado da mesa, você agora se apaga.
E, na imagem desse momento em minha memória, onde a minha mão segura a sua, começo a sentir um vazio: sua mão perde matéria enquanto você desaparece do meu afeto.
Do lugar de onde você sorria e em que meu sorriso, em sincronia e sintonia com o seu, se eternizava em um momento de ternura, mistura-se a partida e o desapontamento do fim.

Estranho como nos tornamos estranhos. Eu e eu.
Na injeção letal do tempo na vida, me sinto o êmbolo entre o líquido da juventude e o nada aéreo comprimido em ideias plásticas do que não temos mais, mas ainda buscamos, pressionamos.
Como o êmbolo, fico em meio ao presente e futuro, juventude e passado, num entre-lugar sem lugar. Sinto a pressão da mão que aplica a injeção na vida e que se faz na minha vontade, em quem eu sou e, logo, não posso mais ser ou vir-a-ser.

Estranho como somos estranhos e como isso é estranhamente normal.

domingo, 10 de abril de 2016

Linhas

Nas linhas de um texto outro, me perdi na lembrança de beijar cada pedaço do seu rosto repetidas vezes. Nem sei mais se criei a memória ou se ela realmente existiu. A cada dia que passa me distancio mais de você, da "gente".

Sei que esse é o caminho quando um relacionamento não dá certo: afastar-se.
Mas também sei que aceitar e repetir esse movimento é desistir de sermos dois. E isso dói.

Eu vou ficar bem sem você e você sem mim. Mas não precisaria. Poderíamos ter construído tanto... A verdade é que quando o coração não sincroniza minimamente, o melhor caminho é esse: separado.
Bifurcamos no que queremos e podemos oferecer ao outro e isso é irremediável. Caminho sem volta (?).

E não há mais previsão de nós. De contato, de encontro. E me incomoda o fato de termos que deixar para o destino marcar o nosso esbarro. Provavelmente acontecerá quando já tivermos esquecido tudo de importante um do outro e iremos passar quase como desconhecidos. A fratura exposta desse nós que não foi, já estará estabilizada com seus pinos, junto aos outros machucados que tivemos. Eu não queria ter ou ser fratura, mas também não poderia ser costura de outros pontos, esparadrapo.

Seu corpo começa a se apagar e o meu exige uma resposta.
Mas são linhas vazias de algo que não se diz, mas acena: adeus.